quinta-feira, 16 de julho de 2015

Guinevere



Eu era rainha e perdi a minha coroa,
Mulher e quebrei os meus votos;
Amante e arruinei quem amava:
Não há maior massacre.
Há poucos meses atrás eu era rainha,
E as mães mostravam-me os seus bébés
Quando eu chegava de Camelot a cavalo.

*Guinevere de Sara Teasdale

Agora falo diretamente aos fãs das lendas arturianas, e sei que são muitos. Estes sabem bem de quem estou falando: Guinevere, a forma normanda do nome original Gwenhwyfar, de origem galesa, composto pelos elementos Gwen, que significa “justobranco” e hwyfar, que significa “suave”.

Alguns sites apontam como significando “fantasma branco” ou “pálido fantasma”, mas a etimologia celta não confirma isso.

A forma Jennifer, originária da Cornuália, se tornou popular em todo o mundo de língua inglesa. Pela popularidade, e pelo fato de fugir bastante – gráfica e fonéticamente – do original, me faz pensar em Jennifer como “prima pobre” de Guinevere.

As lendas arturianas são um misto de divergências e versões. Em geral, cada autor a escreveu como bem entendesse, não observando nenhum padrão, e sendo assim, os personagens e suas funções na história variam bastante conforme quem a escreveu. No entanto, a maioria das lendas arturianas concorda num ponto: Guinevere foi uma mulher poderosa que se afirmou num contexto em que homens tinham mais poder.

Em algumas lendas, ela é amante de Mordred, e inclusive conta-se que ele e Arthur morreram por conta dela numa batalha final. Em outras, ela era apaixonada por Lancelot e manteve um caso com ele mesmo após casada com Arthur. Inclusive algumas lendas incluem uma irmã de Guinevere – Guinevere, a falsa, ou Gwenwhyvach, que teria sido colocada no lugar da verdadeira para que ela pudesse viver com Lancelot.

Pessoalmente, até hoje só li a trilogia de Bernard Cornwell, composta por “O Rei do Inverno”, “O Inimigo de Deus” e “Excalibur”. Nessa obra, que mais se aproxima de uma possível existência histórica de Arthur, Guinevere é a praga na vida de Artur. Interesseira, dissimulada e inteligente. Derfel Cadarn, o narrador da história, diz que a Grã-Bretanha se acabou no dia em que Artur conheceu Guinevere. E realmente, as batalhas que acontecem se devem a compromissos quebrados por Artur em favor de Guinevere. Tem o amor incondicional de Artur, é pouco maternal com seu único filho e cultua a deusa Ísis através de rituais de “orgia pagã”.

Evidentemente, Cornwell desmistifica boa parte das características de Guinevere encontradas em outras versões da lenda. Mas a torna forte e destemida, e pessoalmente prefiro bem mais essa versão.

O final da história é divergente também. Em algumas versões da lenda, diz-se que Guinevere morreu velhinha num convento de freiras, encontrando uma “morte santa”. Em Bernard Cornwell, o fim é bem mais interessante, mas chega de spoiler literário neste post.

Uma das séries mais célebres do nosso tempo é "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, que explorou o ponto de vista feminino da saga. Aqui ,putra autora, Mary Stewart, contribuiu com uma trilogia dedicada a Merlim (A Caverna de CristalAs Colinas OcasO Último Encantamento).

Para além do universo literário explorado pelos autores em torno das lendas arturianas, Guinevere ganhou status de nome próprio, usado – raramente - em países francófonos e anglófonos. Um exemplo é a atriz americana Guinevere Turner (nascida Guinevere Jane Turner), ou Guinevere Van Seenus, modelo americana. Ou ainda, a pouco conhecida mas bastante notável Dra. Guinevere Alice Mei-Ing Kauffmann, uma astrofísica americana.

Não digo que seja um  nome de fácil pronúncia e usabilidade em países de língua portuguesa. A pronúncia correta do Gui (que não é como em Guilherme) e sim como se no lugar do “u” tivesse um “w” dificulta um pouco a leitura do nome e certamente a pessoa portadora dele teria que explicar o tempo todo como é a fala correta.

Além disso, o nome tem versão mais próxima do português: Genebra, que inclusive deu nome a cidade suíça, e Ginevra, a versão italiana do nome. Porém, na minha opinião, essas versões retiram todo o encanto e suavidade do nome. Tornam-o mais pesado, com um cheirinho desagradável de naftalina, ultrapassado, ficando muito aquém de Guinevere.

Em suma, vejo-o como um nome lindo, forte, raro e original. As associações literárias são soberbas, o que o torna sofisticado. O toque um tanto melancólico das lendas arturianas – para mim – não o tornam pesado e sim, romântico. Acrescentando, Guinevere seria um  lindo nome para um casal apaixonado por livros, afinal, vem carregado de uma simbologia relacionada a leitura e ao universo do leitor.  

Divagando aqui, já imaginaram um trio de irmãs chamadas OpheliaGuinevere Julieta? Os pais poderiam sem dúvida, extravasar toda a criatividade literária quanto possível.

Para finalizar, temos aqui uma letra de uma música para juntar-se aos argumentos a favor da escolha de Guinevere:

Guinevere
Rick Wakeman

Love me my Guinevere
In my court, please be near
While our realm is dying
And brave knights are crying
Stay close by side
Lancelot felt no fear
Loved his king's Guinevere
All his love he gave her
Fought through quests to save her
Love, showing the way
Guinevere
Golden tresses shining in the air
Spread against the Jasper sea
Sorrow beheld her face
False love supplying grace
Knowing Arthur's fights
And his trusted knights


Meant more than his queen.






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